sábado, 10 de novembro de 2007

Erros racionalizados

O que é melhor
Que chagas
Admitidas

O que é pior
Que garras
Escondidas

Curioso
Uns choram
Outros gritam
Tu és
Perigoso!
Racionalizas
Os teus erros


O que é melhor
Que beijos
Consentidos

O que é pior
Que desejos
Denegridos

Curioso
Uns choram
Outros gritam
Tu és
Perigoso!
Racionalizas
Os teus erros

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Insónia

Insónia
É um livro
Que não se abre
Porque se sabe
A história de cor

Surpreendente

Carrega nos olhos
Histórias perdidas

Carrega no corpo
Promessas esquecidas

Carrega
O peso
De mil partilhas

Carrega
Memórias rosáceas

Recém-nascidas...

Todo particular

Nos últimos dias, tenho tocado guitarra em público e em sítios diferentes e o contraste tem-me deixado extasiada. Impressionante como um ser humano é capaz de fazer mil e uma coisas, tudo o que quiser, tudo a que se dispor.
Aparentemente, adaptamo-nos aos mais diversos feitios, aos mais diversos locais, sem medo. Não se questiona o poder da improvisação, transpira-se; não se movimenta, existe-se. A actuação envolve um chão, rostos que se fitam, uma ambiência especial.
Inesperadamente, não sou uma forma, são os pormenores que me dão consistência. Engolem-me. Um par de namorados imita-se mutuamente, seguindo um mesmo guião; um velho inclina o copo no clímax da música; as cortinas do fundo parecem tecer comentários de leve ironia; as cores dão um toque irreal à sala; a minha guitarra soa engrandecida e o microfone rouba-me a voz. Tudo isto segue uma sincronia única de que eu também faço parte. Não faz sentido dizer que sou o centro das atenções porque o centro abrange muito mais. O tudo e o nada confundem-se.
Tocar num teatro é como ser abraçada por um grande holofote de luz quente. As pessoas ficam ligeiramente surpreendidas e pedem mais. Dizem que tenho uma voz doce e dão-me palmadinhas nas costas. Agradável.
Tocar num bar é mais familiar e consigo ver quase todas as expressões que me lançam. Prefiro perguntar se conhecem as músicas antes de começar porque assim prevejo reacções. Tempo ilimitado dá uma sensação de conforto. Depois do espectáculo, oferecem-me bebidas, trocamos contactos. Íntimo. As palmas envaidecem-me.
Poderia olhar-me e reconhecer-me mas não sinto. Sinto apenas o todo particular.

domingo, 28 de outubro de 2007

Velho Ancião

Ele guardou em silêncio
As Grandes Lições
Quatro Verdades
Quatro Perdões
No meio do verde
Barba de prata
Rasto de música
Caixa selada
Ninguém revela
As Quatro Lições
Na clareira fechada
Grandes Lições
Não são partilhadas

O aprendiz
Bate à porta
Do Velho Ancião
«Diga-me, Senhor
As Quatro Lições
Para obter a Razão»

Cofiando a barba
O Velho Sábio
Pondera a questão
«
Não há Uma Face
Para a grande Lição

Vais reconhecê-la
Porque te cabe na mão
E vais desejar
Guardá-la em silêncio
Para nunca morrer,
Confia no Velho Ancião»

Ninguém revela
As Quatro Lições
Na clareira fechada

Rasto de música
Caixa selada
Grandes Lições
Não são partilhadas

sábado, 27 de outubro de 2007

Política de massas

Nos últimos cinco minutos, a Assembleia era percorrida por um burburinho nervoso. O líder, o homem da palavra, o Pai, ia iniciar o seu discurso.
E ele dizia:
«Não ao imperialismo, não às armas de fogo, não ao aquecimento global, não ao aborto!»
E a resposta imediata: «YEAH!»
«Sim à liberdade de expressão, à informação fundamentada, à exploração espacial e à intervenção genética!»
«YEAH!»
«Não às prisões, aos bordéis, à repressão, ao terrorismo!»
Suado, o público gritava: «YEAH!»
«Toquem-se, sintam-se, pintem as ruas, subam paredes, cantem, troquem de máscaras, choquem o mundo, não durmam, não morram, irmãos!»
Atropelavam-se, beijavam-lhe os pés: «YEAH!»
«Gays e lésbicas, deficientes, pretos, muçulmanos, ensinem-me algo!» Uma veia no pescoço. «Estou farto de palavras, é agora ou nunca, SEJAM»
«YEAH!»
«Arte»
«YEAH!»
«Mundo Novo»
«YEAH!»
«NO!»
«YEAH!»
«Vocês ouvem alguma porra do que eu estou aqui a dizer?»

«YEAH!»

domingo, 21 de outubro de 2007

Palácio de gritos

Desço as escadas
Pesadas
Do palácio de gritos

Portas
Escancaradas

A beleza
Deste sítio

Sorvem-se prazeres
Durante o sono dos gritos


Acredito...

Pelas paredes
Durante gerações

Parentes
Insípidos

Perfuram ouvidos
No palácio de gritos.

Não há lei.

Todos são proscritos

No palácio de gritos...

Para sempre (por Dr. Milton)

Todas as manhãs vou a um café fanhoso tomar uma bica forte e ler o jornal. Ao soltar a primeira cachimbada do dia, olho em redor e penso. Não fui feito para a confusão.
O que seria de ti, Milton, num grande estabelecimento a observar profissionais de sucesso a deixar cair migalhas e saliva das bocas abertas? Quel horreur. Não. Dou-me ao luxo de exigir privacidade total.
Bebo o café com os punhos da camisa desapertados porque um bom café tem que ser apreciado lentamente, com todos os sentidos. Sinto o licor adocicado pela garganta e penso. Para sempre. Não posso apreciá-lo sem imaginar que é para sempre. O conteúdo insignificante desta chávena destina-se única e exclusivamente a provocar-me prazer. Eu deleito-me. Para sempre.
Seria concebível, hipoteticamente, que ele se revoltasse e gritasse «cospe, velho, cospe, os teus lábios são ásperos, és feio, não te quero para mim»? Não. Quel horreur. Não concebo tal coisa. No meu interior, eu sou merecedor do que quer que seja e deleito-me. Para sempre.

A ironia do ser humano...